Mens Sana In Corpore Sano

A famosa citação latina mens sana in corpore sano, cuja autoria é atribuída a um poeta romano chamado Juvenal, trata-se originalmente de uma espécie de conselho sobre o que as pessoas deveriam almejar na vida. A frase completa orandum est ut sit mens sana in corpore sano,  ou seja,  devemos pedir em oração uma mente sã em um corpo são, era uma resposta aos pedidos fúteis efetuados aos deuses pelo povo romano da época.  Hoje, o adágio adquiriu um sentido absolutamente diverso, comumente concebido como a assertiva de que é condição essencial a uma mente sã habitar um corpo são. E vice-versa. Em outras palavras, a expressão passou a representar o equilíbrio entre corpo e mente como condição para o bem-estar humano. Já que não disponho de recursos acadêmicos para afirmar a veracidade da proposição, valer-me-ei de uma experiência pessoal para tentar, empiricamente, provar, ao menos, a sua plausibilidade.

Como já dito, embora exerça profissões eminentemente intelectuais de Advogado Público e Professor, procuro praticar algum tipo de atividade física pelo menos cinco dias por semana. Ocorre que, pra realizar um antigo sonho que vem sendo adiado ano a ano, resolvi ingressar no mestrado. Qualquer mestrado? Não… Tinha que ser algo novo que me motivasse a estudar: filosofia! Filosofia do direito, claro. O problema? Minha especialização é em área absolutamente diversa (Direito Público), o que demandaria uma carga redobrada de estudo. Mas onde tentar ingressar nesse mestrado? Já que dificuldade pouca é bobagem, vamos logo partir pra USP. Foi quando descobri que só o processo seletivo dura nada mais nada menos do que um ano.

Superada até com surpreendente facilidade a prova de proficiência em língua estrangeira, passamos à preparação para a prova de conhecimentos específicos. São dez temas de alta complexidade, ocorrendo o sorteio de um deles no dia da prova, para a realização de uma dissertação. O estudo envolveu o manejo de não menos do que 50 obras, algumas com leitura integral.

A prova estava marcada para dia 04/09/12. Duas semanas antes já estava absolutamente esgotado dos três incansáveis meses de estudo anteriores. Ocorre que, diante da dificuldade de esgotar a leitura da tormentosa bibliografia, resolvi suspender as atividades físicas regulares, para dedicar-me mais tempo aos estudos. Comecei a estudar até as duas, três horas da manhã todos os dias. Não tinha sono. Embora a cabeça estivesse esgotada, o corpo queria ser exigido, para só então se render ao descanso. Mas não era. No dia seguinte, mais trabalho e mais estudo. E nada de atividade física.

A coisa andou mais ou menos assim, até o domingo que antecedia à prova. Era o último dia em que eu tinha me programado para estudar e deixei alguns pontos importantes pra revisar ali. Desagradável surpresa: acordei com febre, dor no corpo e dor de cabeça. As coisas só pioraram no desenrolar do dia. Praticamente não consegui estudar, embora tenha me esforçado muito para tanto. No dia seguinte (segunda-feira), sem que os outros sintomas fossem embora, veio o enjoo e o desarranjo intestinal. Estava simplesmente um trapo humano.  Tive que suspender os estudos. Não tinha outra opção. Resolvi relaxar e tentar corrigir o equívoco cometido.

No dia da prova (terça-feira), estava melhor, mas não 100%. O tema sorteado foi “Marx e a tradição crítica do direito”. Até que não era dos piores. Sempre gostei de ler Marx. O filósofo-político mais influente do século XX sustenta, de maneira bastante singela, que a ideologia dominante é uma imposição do sistema de produção capitalista. Em outras palavras, a idéia central do pensamento marxista é a de que a classe que dispõe dos meios da produção material dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção intelectual, sendo as ideias predominantes, expressão das relações econômicas predominantes.

O pensamento de Marx ainda hoje é muito revisitado, pois nos ensina a pensar criticamente sobre como o ser humano é levado pela conformação da própria sociedade a um estado de alienação que induz à aceitação irrefletida da ideologia vigente.

Como disse, não tenho conhecimento científico para afirmar que a minha “pane” foi em razão do estado mental de tensão em que me coloquei agravado pela suspensão repentina da atividade física. Mas o fato é que, passada a prova, os sintomas simplesmente desapareceram como que por um passe de mágica. E todas as pessoas com que conversei afirmaram que meu estado físico era reflexo da atitude irracional tomada nos dias anteriores.

Concordo em muitas coisas com o espírito crítico e contestador de Marx. Mas se o grande filósofo alemão fosse vivo, acho que dificilmente discordaria da ideia geral vigente de que uma mente sã exige um corpo são…

Roberto Angotti.

rangotti@PREFEITURA.SP.GOV.BR

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