O Caminho da Felicidade.

Quando abri o livro “Filosofia Política Contemporânea” de Will Kymlicka, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Otawa, Canadá,  estava longe de imaginar que pudesse encontrar inspiração para escrever para o nosso blog.

O livro, que é uma introdução crítica aos textos das grandes escolas do pensamento político contemporâneo, inicia tratando do “utilitarismo”, escola de pensamento que sustenta, em linhas bastante gerais, que o ato ou procedimento moralmente correto é aquele que produz a maior felicidade para os membros da sociedade.

Os utilitaristas definiram tradicionalmente a utilidade em função da felicidade – daí o conhecido lema: “o máximo de felicidade para o maior número de pessoas”. A visão mais influente da tradição utilitarista nos informa que a experiência ou a sensação de prazer, correspondente à felicidade, é o principal bem humano.

Aqueles que combatem esse hedonismo do bem-estar, como Roberto Nozick, nos convidam a imaginar que neurofisiologistas fossem capazes de nos ligar a uma máquina que nos injetassem drogas capazes de nos proporcionar, em estado consciente, as mais inimagináveis sensações de prazer. Assim, se o raciocínio utilitarista estivesse correto e, por conseguinte, o prazer fosse o bem supremo, estar conectado à quimérica máquina, por toda vida, perpetuamente drogados, não sentindo nada além de felicidade, seria o mais desejável estado de bem estar humano. A pergunta é: quantas pessoas se habilitariam a “viver” assim? Concluo com o autor: pouquíssimas!

Isso porque, como adverte Kymlicka, a concepção hedonista de utilidade está errada, pois as coisas que valem a pena fazer e ter na vida não podem ser reduzidas a um estado mental de felicidade. Em outras palavras, o ser humano não se contenta em “ter felicidade”, ele quer “conquistar a felicidade”.

E, mais direcionado ao nosso propósito, alcanço outra conclusão: nem sempre o “sofrimento” é sinal de “desprazer”. Deixo a explicação fisiológica para os especialistas, mas o fato incontestável é que quem pratica um esporte de alto rendimento ou mesmo atividade física intensa sabe que o liame entre prazer e dor é algo extremamente tênue.

O que é mais prazeroso para um corredor, fazer uma prova de 10km, confortavelmente, pela décima vez ou concluir a sua primeira maratona? A resposta é óbvia, como o é a conclusão de que será a prova de 42 km a que causará maior desconforto físico…

Por outro aspecto, sabemos que ganhar uma medalha olímpica é o sonho de todo atleta. Para o atleta de alto rendimento a conquista do pódio é o prazer supremo.

Mas e nós, meros mortais? O que nos leva a acordar de madrugada para participar de uma prova de rua acompanhados de outras 20.000 pessoas, sabendo que teremos que ficar por longos minutos atrás de um ar cada vez mais rarefeito, pra chegar, sei lá, por volta do 100º, 1000º ou 10.000º lugar? Para a maioria das pessoas que praticam a corrida, é pelo simples prazer de bater seus próprios tempos… A felicidade está no desafio.

Neste mesmo contexto e pra concluir, quem já teve a oportunidade de participar de uma corrida de rua, sabe que não há efetiva fiscalização por parte da organização da prova quanto ao estrito seguimento do percurso.  E eu nunca tive notícia de um corredor que houvesse burlado tais regras. Porque isso acontece?

Tanto a mais refinada filosofia contemporânea como a mais pura e intuitiva sabedoria popular explicam: a felicidade é um caminho e não um destino!

Roberto Angotti.

rangotti@PREFEITURA.SP.GOV.BR

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