Feliz Natal: Cuide do Seu Corpo, da Sua Casa, da Sua Família e Seja Feliz…

Vontade de Viver – (Elegia a Pablo Picasso).

Picasso é o mestre da vontade de viver e sua exposição é um exemplo claro dessa inquietação, que muitos confundem com irrequietação, a boba angústia de um movimento sem causa. Inquietar-se é saber que alguma coisa pode estar acontecendo neste momento, que poderia ser para você e que pode ser perdida pela sua acomodação e passividade.

É entender que você escreve sua página, que chega em branco, e que essa existência é o jogo maior de se tentar encontrar as nossas correspondências. O que se dá o nome de carma. Eis porque Picasso não podia ficar comas mãos paradas e era chamado de taquipsiquico; queria desvendar o mundo dentro e fora dele; transformava uma mulher num espetáculo da natureza e uma flor num privilégio de amor, um automóvel numa montanha e essa montanha num espectro de luz.

Dizia “a morte acontece, surge, irrompe, mas não tem essência. Só existe a vida. Apenas ela nos foi dada. Assim, não procuro, acho. Esse é o grande sentido. É preciso ter vontade de viver. Descobrir a cada dia o que nos dá essa vontade e lutar, lutar muito, para jamais perder de vista o que renova esse existir. Esse compromisso é o único segredo do prazer em estar aqui”.

Picasso tinha horror do modo correto de viver se essa correção implicasse em viver sempre de acordo com as normas morais. Gritava que a moral é regional e que a ética é universal porque é de todos e de cada um. Afirmou aos 86 anos, numa entrevista, que o seu maior pavor era banalizar a vida, entregar-se de corpo e alma ao mundo externo, aderir ao grupo social como um membro permanente e não como aquele passageiro que sabe o tempo do seu visto e preza a impermanencia como símbolo divinal. Logo, nunca adere integralmente e guarda a sua parte inédita. Por isso é um pintor mundano, embora cultivado pela intelectualidade.

Certo dia disse a sua última mulher, Jacqueline, 40 anos mais jovem: “Não se dedique inteiramente a mim que você me perde na hora, dedique-se a você mesma. Porque mais cedo ou mais tarde alguém a trairá e todas as traições, infidelidades, e ingratidões dos outros são nada perto daquelas que você fará a si”. E quando a filha Paloma queixou-se de um desamor, falou-lhe: “Só o seu inédito atrai realmente o outro, aquilo que nunca será dele e não o foi de ninguém, é o que provoca o desejo de querer tê-lo. Mas só as pessoas inteligentes vivem o amor assim. Os idiotas entregam tudo”.

Detestava conselhos, mas gritava aos jovens artistas: “Nunca fuja da realidade, viva-a e encontre nela as respostas. A grande procura já pressupõe o encontro. É este quem desperta a procura. Esqueça o compromisso de passar sua mensagem. Que asneira! Pinte o seu devir, os seus amores loucos, a sua constante mudança, a maravilha de seu desvario ao envelhecer magnificamente”. Aos 92 anos, em plena vitalidade, meses antes de morrer, disse ao seu empregado mais fiel: “Quero ir embora antes da minha imaginação. Que ela ainda fique vagando por aqui. Senão tudo terá sido de uma banalidade desconcertante e ter vivido não pode ser isso”.

E faço a vocês a pergunta que ele fazia aos amigos:

“O que te dá vontade de viver neste momento?”.

Texto Publicado no Jornal “A Tribuna de Santos”. 2005.

N-Magalhães.

nivaldomagalhaes50@hotmail.com

http://facebook.com/nivaldomr

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