As Cicatrizes da Evolução – Parte II.

Parteiras Ancestrais.evoluc-a-o-humana-tecnolo-gica

Os pesquisadores destacam, no entanto, que nem todas as marcas da evolução aparecem depois da idade reprodutiva. O próprio parto humano é extremamente perigoso, mais do que o dos outros primatas. “O jeito complicado pelo qual temos bebês mostra como não existiu nenhum designer projetando nosso sistema reprodutivo”, diz Karen Rosenberg, antropóloga da Universidade de Delaware, organizadora da palestra.

Segundo os antropólogos, há cerca de dois milhões de anos a evolução tem selecionado cérebros — e crânios — cada vez maiores nos ancestrais humanos. Hoje, seu cérebro chega a ser três vezes maior do que era no começo desse processo. O problema é que isso vale não só para os adultos, mas também para os bebês. Quando nasce, uma criança humana tem, em relação ao corpo da mãe, a cabeça e o tronco duas vezes maior do que o dos outros primatas. “Além disso, o canal de nascimento não é uma passagem simples, mas muda de formato ao longo do percurso. O bebê tem de passar por passagens muito apertadas, girando para encontrar seu caminho”, diz Karen.

Isso traz uma série de perigos no momento do parto, tanto para a mãe quanto para a criança, incluindo danos neurológicos permanentes e até a morte. No entanto, a evolução também equipou o ser humano para lidar com esse risco. “Isso poderia ser uma ameaça à sobrevivência da espécie humana, mas somos animais culturais. Assim, conseguimos a ajuda de outras pessoas para diminuir o risco envolvido no momento do parto”, afirma Karen.

Essa ajuda é clara nos tempos modernos, com a existência dos médicos obstetras e das cesarianas (que, segundo Karen, salvam vidas, mas estão sendo usadas em excesso em diversas partes do mundo). Esse tipo de apoio, entretanto, não é novidade – é anterior à própria medicina. “Basta a presença de alguém para ajudar a receber o bebê, auxiliar a mulher a respirar, a segurar a criança no momento do parto. Isso não exige tecnologia. Minha teoria é a de que esse tipo de ajuda existe desde os Australopithecus, há mais de três milhões de anos.”

Projeto Sem Fim.

A evolução não deixou apenas cicatrizes na espécie humana, mas também feridas abertas. Os Homo sapiens atuais não são apenas produto da seleção natural, mas seus agentes diretos — ela ainda está acontecendo em seus corpos. O exemplo mais claro disso é a presença — e a ausência — dos dentes do siso.

Os ancestrais humanos possuíam grandes maxilares, com espaço suficiente para o desenvolvimento completo dos dentes posteriores, como os molares e pré-molares. Com o aumento progressivo do cérebro ao longo dos milênios, o crânio humano começou a se organizar de modo diferente. O espaço destinado para a caixa craniana cresceu, às custas das partes inferiores da cabeça. Com isso, o maxilar não era mais capaz de suportar os antigos 32 dentes. Muitas vezes, o terceiro molar, o último dente a nascer, não conseguia mais se desenvolver por completo. Em alguns casos, ele crescia na direção horizontal, pressionando o resto da arcada dentária ou danificando o tecido mole da boca.

Isso, é claro, produzia dores crônicas, mas nunca levava à morte do indivíduo. Mesmo assim, a seleção natural começou a cuidar do problema. “Há dezenas de milhares de anos, uma mutação genética suprimiu a calcificação desse terceiro molar. Fósseis do pleistoceno já mostram pessoas sem esse dente”, diz Alan Mann, professor de antropologia da Universidade de Princeton.

Para explicar como essa mutação se espalhou pela população, o pesquisador atualiza o conceito de evolução: ela não é mais vista apenas como a sobrevivência dos mais aptos, mas a reprodução dos mais aptos. “Imagine um casal de ancestrais humanos, cujo homem está sofrendo com o crescimento do terceiro molar. Quando chega o momento da reprodução, ele pode dizer: ‘Hoje não querida, estou com muita dor de dente’. Assim, eles têm menos filhos do que teriam sem a dor”, diz Alan Mann.

Desse modo, os humanos que portavam a mutação passaram a se reproduzir mais e a espalhar seus genes pela população. Hoje, em muitos lugares do mundo, 25% das pessoas não possuem pelo menos um desses dentes. Recentemente, com as modernas técnicas de extração dentária, as dores do siso podem ter deixado de ser um dos fatores de seleção natural — pelo menos nos países mais ricos. “Nos subdesenvolvidos, no entanto, ela ainda está agindo nesse sentido”, diz o antropólogo.

Fato é que a evolução humana ainda não acabou — e nunca vai acabar, enquanto a espécie existir — , mas os cientistas não fazem ideia sobre o caminho que irá traçar daqui para frente. As possibilidades são muitas e o processo é extremamente lento. “Sabemos que a evolução não cria características a partir do nada. Ela faz o melhor com o material que já existe” diz Jeremy de Silva. A partir do material disponível, o que dá para adiantar é que, independente da mudança a caminho, os humanos vão continuar funcionais, mas imperfeitos.

http://blogfisiobrasil.blogspot.com.br

N-Magalhães.

nivaldomagalhaes50@hotmail.com

http://facebook.com/nivaldomr

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: